quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Exemplo de vida

"História de Vida - 4


Eu adorava o meu Pai. Ele era tudo para mim. Era a minha vida, o meu protector, o meu grande amigo e compincha. Passávamos horas a brincar e a conversar. Eu sabia que ele me amava incondicionalmente e ele sabia que eu precisava dele para ser feliz. A minha mãe era uma espécie de vulto. Estava lá, mas existia uma distância cerimoniosa. Não havia grande afecto, apenas um contacto quotidiano ditado pelas tarefas diárias.

Ele ensinou-me a pescar. A ler e a fazer cálculos. Disse-me que o melhor da vida é quando conseguimos parar o tempo. E que isso só acontece quando somos sinceramente felizes. Não existem horas ou dias. Apenas nós e as pessoas de quem gostamos e os momentos que vivemos juntos. Disse-me que era médico porque achava que todos têm direito a uma segunda oportunidade e que odiava quando falhava. Disse-me que o dinheiro corrompia quando é mal usado e ensinou-me a ser forte e a lutar apesar de todas as dificuldades que podiam surgir.

Tinha eu 15 anos e era um Domingo de Sol. Dia 15 de Junho – 11:32 da manhã – o momento em que o meu pai morreu. Foi uma dor muito grande. Tão grande que eu tentei suicidar-me logo a seguir à notícia, mas o meu Tio soube tirar-me a faca que eu tinha agarrado antes de fazer cortes mais profundos nos pulsos. Naquele momento eu não conseguia imaginar a minha vida sem o meu Pai, nem conseguia suportar aquela dor que me consumia por dentro. Eu sabia que o meu corpo estava vivo, mas a minha alma tinha morrido naquele dia.

Passei a andar em estado vegetativo, sem sentir nada, sem me importar com nada. E assim passou um ano. E a minha mãe onde estava? Andava demasiado ocupada a gastar o dinheiro do meu pai e namorar com um homem 20 anos mais novo. Sentia-me um miserável…

Num desses dias cinzentos em que estava a chegar a casa, passou por mim uma vizinha que já tinha sido paciente do meu pai. Ela olhou-me nos olhos disse-me que o meu Pai lhe tinha dado uma segunda oportunidade de viver e que era injusto o meu pai ter sido brutalmente atropelado sem ter tido uma única oportunidade de lutar pela vida. Abraçou-me forte e disse ao meu ouvido: ”Não desistas de ti. O teu Pai disse-me que apenas tu e a tua felicidade eram importantes para ele. Não o desapontes.” Cheguei a casa a chorar. Abri a porta da sala e encontrei a minha mãe a fazer sexo oral àquele homem nojento à frente da fotografia do meu Pai. Atirei-lhes a minha mochila e gritei-lhes o quanto os odiava e o quanto me causavam repulsa.

Enfiei-me no meu quarto e fiz uma promessa a mim mesmo e ao meu pai. Sair daquela casa quando tivesse 18 anos e ser médico tal e qual o meu pai. Assim, com 16 anos comecei a trabalhar todos os dias a estudar com afinco. Mal dormia, mal comia. Andava sempre com umas olheiras até aos pés. E enquanto isto, a minha mãe vivia uma vida de rica em que só se importava com sapatos e roupa e jóias e homens. Sim, porque ela passou a coleccionar namorados.

No dia em que fiz 18 anos fiz a mala e deixei um bilhete à minha mãe a dizer que tinha saído de casa, que nunca mais iria voltar e para ela esquecer que eu existia.

Entrei na universidade em Medicina. Paguei sozinho o curso e licenciei-me com a média mais elevada da minha turma.

Sou actualmente um neurocirurgião competente que dá uma segunda oportunidade às pessoas para viverem e serem felizes. Estou a ensinar o meu filho a pescar e estou a pagar o lar em que a minha mãe está internada com Alzheimer.

Vou todas as semanas ao cemitério onde me limito a ficar em silêncio e a pensar que o meu Pai deve estar orgulhoso de mim e que de certa forma, eu tornei-me num espelho dele. De tal forma, que por vezes me sinto ser ele, por mais estranho que soe."

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