terça-feira, 13 de julho de 2010

Memória

Fará, no próximo dia 30 de Julho, 27 anos que ocorreu o acidente de automóvel que mudou a minha vida para sempre. Não vou estar aqui a falar disso, até porque já contei alguma coisa sobre o que aconteceu num post anterior.

Mas uma das muitas sequelas que o acidente me deixou foi terem-se apagado praticamente todas as memórias que tinha anteriores àquele dia. Não me esqueci de quem sou, de quantos anos tenho, onde moro, em que ano estamos, nada dessas cenas próprias dos filmes. Nada disso. Aquilo a que me refiro é que tenho recordações vagas, consigo lembrar-me de coisas que fazia quando era pequenina, hábitos, mas lembrar de cenas específicas que por vezes me contam... não consigo. Algumas das coisas que tenho falado no blog sobre quando era miúda são-me ditas por outros, não é que me recorde concretamente delas. Incomoda-me muito, por exemplo, não me recordar do rosto do meu pai. Eu tinha 15 anos, portanto ainda foram muitos anos de vida com ele, e eu não me lembro do rosto dele. Só quando vejo fotografias (que ainda por cima são poucas, pois era ele que as tirava) é que o vejo e isso deixa-me de rastos.

Outra das coisas que tenho pena que me tenha acontecido, relacionado com este problema, é que de tantos livros que li, e que realmente adorei, e que me fizeram sonhar (isso sei que aconteceu), não me lembro das suas histórias. Se vir os seu títulos, sei que os li, lembro-me do tema ou da história, mas no geral. Não daquelas linhas especiais, que gostamos de escrever num caderninho (agora faço isso, antes, com pena minha, não o fiz), não do porquê de ter gostado tanto do livro (que sei que gostei, mas lá está, não consigo especificar nenhuma parte desse mesmo livro).E isso perdura. Ainda hoje, leio um livro, agarro-me a ele com "unhas e dentes" (que raio de maneira de descrever a leitura de um livro), com um prazer imenso e depois, passados dois ou três dias, é como se apenas o tivesse lido "por alto", de fugida.

É estranho. Eu sei que é, mas é mesmo assim que se passa. Se já procurei saber o porquê, junto dos médicos? Não. Porquê? Porque conforme não tenho essas memórias, também não me lembro do acidente em si (sei que ia acordada, por isso terei presenciado tudo), e tenho muito medo de vir a despertar essa memória tão má, em que o meu pai morreu à minha frente e outra pessoa amiga morreu ao meu lado. E isso não quero. Prefiro recordar o meu pai nas fotografias, prefiro ouvir histórias sobre mim pela boca dos outros, prefiro ler os livros 2 e 3 vezes para poder recordar as suas histórias. Prefiro perder um bocadinho de mim.

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